7 de jan. de 2026

A queda do regime de Nicolás Maduro inaugurou um novo capítulo no equilíbrio de forças da América do Sul. Se a Venezuela havia se tornado um caso extremo de colapso estatal, agora a atenção migra para o país ao lado — e ela não veio de analistas, militares ou diplomatas, mas diretamente da boca do presidente dos Estados Unidos. Em poucos dias depois da captura de Maduro, Donald Trump passou a mencionar a Colômbia com preocupação e, em certo momento, com ameaça explícita. A partir do início de janeiro de 2026, Trump começou a descrever a Colômbia como um “país doente”, insinuando que seu governo havia perdido controle territorial sobre zonas críticas, além de sugerir envolvimento pessoal do presidente Gustavo Petro no narcotráfico. Quando questionado sobre a possibilidade de repetir na Colômbia a ação militar executada em Caracas, Trump respondeu que isso “soava bem”. Esse trecho ressoou com peso porque emergiu imediatamente após os Estados Unidos demonstrarem que estavam dispostos a ir além da diplomacia. A intervenção americana em Caracas cruzou uma fronteira implícita do sistema internacional. O governo dos EUA não tratou Maduro como presidente protegido por imunidade, mas como indivíduo que havia perdido o direito de administrar um território rico em petróleo e minerais. Ao mencionar a Colômbia sob a mesma lógica, Trump deixou claro que a operação venezuelana poderia ser replicada em qualquer país que, aos olhos de Washington, falhe em controlar áreas sensíveis vinculadas a economia subterrânea e rotas estratégicas. Esse enquadramento pressiona a espinha dorsal da relação bilateral entre Bogotá e Washington. Há duas décadas, a Colômbia foi a principal parceira dos Estados Unidos na guerra contra drogas, sustentada através do Plano Colômbia — um programa que injetou bilhões de dólares em apoio militar e infraestrutura. Essa cooperação não era apenas ideológica; ela protegia zonas produtivas e rotas logísticas consideradas capitais para segurança hemisférica e cadeias globais de suprimentos. A ironia é que, apesar desses investimentos, a Colômbia permanece como maior produtora mundial de cocaína. Não por complacência direta do Estado, mas porque fatores históricos e geográficos tornam certas regiões áreas férteis para economias paralelas e disputas por controle territorial. Petro propôs substituir o método de erradicação à força por programas de transição econômica — o que, para setores do governo americano, reduziu a pressão sobre áreas onde fluxos ilícitos competem com cadeias produtivas legais. Na narrativa de Trump, essa mudança deixa de ser escolha soberana e passa a ser erro estratégico. A crítica não está amparada em evidência concreta de que o governo participe do comércio ilegal, mas explora um argumento sensível: se um Estado não controla seu território, suas fronteiras e as atividades econômicas que nelas circulam, outra potência pode se considerar habilitada a fazê-lo. É aqui que a Colômbia entra no segundo ato da crise hemisférica. A Venezuela foi tratada como caso extremo de Estado que perdeu o controle da riqueza material que sustenta o poder nacional. A Colômbia, agora, é insinuada como país que falha em controlar rotas, regiões e fluxos econômicos que afetam o continente e, por extensão, mercados internacionais de energia, mineração e comércio. Na lógica projetada por Washington, se um país se torna incapaz de administrar seus vetores internos de risco, ele deixa de ser mero aliado e passa a ser peça instável num tabuleiro maior — um tabuleiro definido por recursos, logística e capacidade de projetar poder. Esse deslocamento explica por que a menção pública de Trump teve tanta repercussão. Ela plantou a sugestão de que a intervenção militar na Venezuela não encerrou um ciclo; apenas iniciou uma nova fase. E ao fazer isso, colocou a Colômbia na fronteira entre a política doméstica e a competição estratégica por controle territorial e material. Em uma região caracterizada por fronteiras permeáveis, zonas de mineração ilegal, rotas de contrabando, corredores energéticos e mercados decisivos, as palavras deixam de ser discurso. Quando vêm do ator com maior poder operacional do hemisfério, elas se tornam premissas para ação. Se a fala de Trump colocou a Colômbia sob risco retórico, a reação de Bogotá tratou o aviso como algo muito mais grave do que isso. O presidente Gustavo Petro não apenas rejeitou as acusações, como respondeu de forma direta, pública e calculada. Em discurso nacional, afirmou que a Colômbia “não aceita reis nem impérios” e declarou que, se necessário, voltaria a pegar em armas para defender o território colombiano, uma referência ao seu passado guerrilheiro e um sinal claro de que o governo não pretende ceder soberania sem resistência. A resposta não ficou no plano simbólico. O Ministério das Relações Exteriores enviou uma nota diplomática formal a Washington afirmando que as declarações americanas configuram afronta à soberania nacional e interferência em decisões internas relacionadas à segurança e à gestão territorial. A chancelaria reforçou que a Colômbia tem direito a definir seus métodos de combate ao narcotráfico, inclusive por meio de programas econômicos de transição que visam substituir cadeias informais e ilícitas por atividades produtivas integradas ao mercado legal. O Ministério da Defesa seguiu no mesmo compasso. Generais de alta patente foram autorizados a revisar protocolos defensivos e mapear pontos sensíveis — zonas de fronteira, áreas de mineração ilegal, corredores logísticos na Amazônia e regiões em que o Estado enfrenta grupos armados residuais. Não houve mobilização pública de tropas, mas a simples admissão de que as Forças Armadas podem ser acionadas contra incursões externas foi suficiente para demonstrar que o governo colombiano não enxerga o momento como retórica vazia. A reação social foi igualmente forte. Petro convocou manifestações públicas e milhares de colombianos foram às ruas em Bogotá, Medellín e Cali. Os protestos não eram sobre política partidária, mas sobre um sentimento mais profundo: o direito de um país administrar seu território, seus recursos e suas fronteiras sem tutela externa. Para grande parte da população, a declaração americana não soou como aviso contra o narcotráfico, mas como ameaça de controle direto de zonas que têm valor estratégico e impacto econômico. Mais além da política doméstica, os efeitos irradiaram pelo continente. Governos vizinhos — Chile, Argentina, México e Brasil — condenaram implicitamente ou explicitamente a retórica de Trump. Não por simpatia particular ao governo Petro, mas pelo receio evidente de que a intervenção na Venezuela deixe de ser exceção e passe a ser instrumento de reorganização política no continente, especialmente em países com fronteiras sensíveis e presença de recursos estratégicos. A ONU também entrou na discussão, ainda que de forma protocolar. Diplomatas lembraram que ações militares unilaterais em território estrangeiro violam o direito internacional e só seriam legalizáveis em caso de autodefesa ou autorização do Conselho de Segurança. O eco da operação venezuelana dominou os corredores da instituição: se a comunidade global não contestar a prática com vigor, outros Estados podem ser tratados como administradores falhos de seu território e de seus recursos, abrindo caminho para novos precedentes. E é exatamente nesse ponto que a crise mostra sua camada estrutural mais profunda. A Venezuela foi ocupada politicamente porque perdeu o controle da indústria extrativa formal, que passou a operar pelas margens do Estado. A Colômbia, aos olhos de Washington, é acusada de falhar em controlar rotas, corredores e economias subterrâneas que coexistem ao lado de cadeias produtivas legais. Ambos os casos convergem para um princípio não declarado, mas que orienta a política de força: se um país não administra plenamente o território onde se encontram recursos críticos ou fluxos ilícitos que afetam o mercado internacional, ele pode se tornar alvo de decisão externa. Por ora, nada indica que uma intervenção militar seja iminente. Mas a narrativa foi lançada e o precedente existe. A Colômbia agora se movimenta para provar que não perdeu o controle sobre suas áreas produtivas formais, sobre zonas sensíveis de fronteira e sobre regiões que concentram extração, contrabando e comércio ilegal de minérios e commodities. A mensagem subjacente é clara para quem lê o tabuleiro real: a disputa já não é apenas política — é material. No continente, o país que demonstrar incapacidade de controlar a riqueza que existe sob seus pés corre o risco de ter alguém pronto para decidir seu destino.