6 de jan. de 2026

A madrugada de 3 de janeiro de 2026 começou como tantas outras em Caracas. Silenciosa, pesada, marcada pelo escuro das ruas esvaziadas. Mas, no interior desse cenário, algo que vinha sendo preparado há meses estava prestes a romper o quadro estático da crise venezuelana. Helicópteros militares norte-americanos cruzaram o espaço aéreo e, em poucas horas, Nicolás Maduro e Cilia Flores — os dois epicentros do regime — estavam sob custódia dos Estados Unidos, removidos do palácio e do país que ainda nominalmente comandavam. A operação recebeu o nome de Operation Absolute Resolve, e não por acaso. O governo dos EUA não apresentou seu movimento como ataque a um Estado soberano, mas como aplicação de lei federal contra indivíduos que já haviam sido formalmente indiciados por narcotráfico, narcoterrorismo e conspiração para exportar cocaína para os EUA. Era uma afirmação clara: para Washington, Maduro não era mais um líder político protegido, mas um réu criminal foragido que ocupava uma cadeira presidencial. A raiz desse desencontro de narrativas não é política — é material. A Venezuela não se enquadra na categoria tradicional de país instável. Ela se tornou a combinação que o mundo raramente tolera por muito tempo: um território com imensas reservas de petróleo, ouro, gás, bauxita e coltan — sem um Estado funcional capaz de administrá-las. E é nesse detalhe que o episódio de janeiro precisa ser lido. A captura de Maduro não é apenas a queda de um líder — é o marco do momento em que a comunidade internacional, ou pelo menos a potência com maior capacidade operacional do hemisfério, decidiu que não poderia continuar assistindo à deterioração de um dos depósitos de riqueza mais estratégicos do mundo. Maduro, há muito tempo, governava à margem da legitimidade internacional. Sua reeleição foi formalmente rejeitada por dezenas de países, a União Europeia não o reconhece como presidente eleito, e organismos hemisféricos declararam ruptura democrática no país. A contestação política foi acompanhada de algo ainda mais determinante: o país perdeu progressivamente a capacidade de extrair, gerenciar e comercializar a própria riqueza que o sustenta. Sob sua gestão, a Venezuela deixou de ser administrada como uma economia nacional e passou a operar como um sistema fragmentado onde recursos naturais circulavam fora das instituições, capturados por milícias, negociações clandestinas e alianças pragmáticas com regimes externos. Esse quadro resultou não apenas em pobreza e colapso de serviços, mas num problema de ordem maior: quando um país perde o controle sobre aquilo que o mundo precisa — energia, minerais, rotas logísticas — ele deixa de ser apenas uma crise doméstica e passa a ser um risco sistêmico. A madrugada da operação militar foi apenas o sinal mais visível desse diagnóstico global. Para os Estados Unidos, não se tratava apenas de derrubar um ditador ou de interferir em outra nação. Tratava-se de impedir que ativos estratégicos fundamentais — petróleo, refino, cadeias extrativas — continuassem expostos a: crime organizado, mercados paralelos, e blocos geopolíticos adversários. O que aconteceu em Caracas não foi improvisação, nem desvio de doutrina. Foi o reconhecimento de um fato duramente objetivo: a Venezuela já não exercia o mínimo necessário para ser tratada como guardiã de seus próprios recursos. E assim, Maduro perdeu não só o Palácio de Miraflores, mas o último escudo que separa um Estado disfuncional da ação externa: a proteção da soberania. A operação norte-americana encontrou a Venezuela em um estágio raro da vida de um país: a desconexão progressiva entre território, governo e riqueza real. O regime de Maduro comandava formalmente a máquina estatal, mas já não era capaz de controlar os elementos que sustentam uma economia moderna — nem politicamente, nem fisicamente. O primeiro sinal desse esvaziamento veio no único setor que o país não poderia permitir colapsar: a indústria petrolífera. A queda da PDVSA não foi acidental. Ela foi consequência de um processo contínuo de: expurgos internos, eliminação de quadros técnicos, corrupção sistêmica, paralisação de investimento, e uso da empresa como ferramenta partidária. Refinarias antes operantes foram sucateadas. Oleodutos deixaram de receber manutenção básica. A produção caiu em níveis inéditos — de milhões de barris diários para patamares que sequer atendiam às necessidades internas em momentos críticos. Esse colapso não se restringiu ao petróleo. O Arco do Orinoco, região com algumas das maiores jazidas de ouro, coltan e minerais estratégicos do continente, deixou de operar sob supervisão do Estado. Milícias armadas, garimpeiros ilegais e redes associadas a cartéis locais e estrangeiros passaram a explorar — e exportar — parte desses recursos para mercados paralelos. Enquanto isso, o governo mantinha controle cada vez mais simbólico. Na prática, o território estratégico era administrado por uma colcha de atores: militares fragmentados em interesses próprios, grupos paramilitares compostos por lealdade ao regime, facções armadas com sua própria economia clandestina, e aliados externos ocupando áreas de influência e logística. A ironia estrutural da crise venezuelana é visível: um país com as maiores reservas de petróleo do mundo, e um dos maiores depósitos minerais das Américas, foi reduzido a importar gasolina, alimentos e até medicamentos básicos. Essa contradição não é econômica. É sintoma de algo mais profundo: um Estado que perdeu capacidade operacional sobre seus recursos perde, inevitavelmente, capacidade de impor ordem. A erosão institucional seguiu a trajetória típica de regimes que concentram poder e sufocam o setor produtivo: O governo controla tudo. A produção desaba. A informalidade ocupa o espaço vazio. A ilegalidade se fortalece. O Estado se torna espectador do próprio território. É nesse ponto que a crise interna deixa de ser questão doméstica e se torna problema internacional. Não porque um país pobre ameace vizinhos, mas porque riqueza crítica mal administrada altera interesses e equilíbrios fora de suas fronteiras. E, enquanto o governo venezuelano anunciava vitória ideológica, a realidade era objetiva: o país estava quebrado, incapaz de exportar legalmente, e com sua principal fonte de energia e receita nas mãos erradas. No sul da Venezuela, garimpos ilegais tornaram-se verdadeiros Estados paralelos. No litoral, instalações estratégicas de petróleo passaram a funcionar de forma irregular. Nas fronteiras, rotas usadas para comércio licenciado foram substituídas por corredores controlados por organizações clandestinas. A essa altura, o problema deixou de ser Maduro enquanto líder ideológico, e tornou-se Maduro enquanto gestor falido do que sustenta uma nação. Quando um país extrativo perde o comando sobre sua própria base material, o governo deixa de ser referência, e os recursos se tornam disponíveis para quem estiver disposto a tomá-los — econômica, política ou militarmente. É exatamente nesse ponto que a operação militar de 2026 deixa de ser apenas uma ação policial internacional e se transforma em uma reação ao risco geoeconômico gerado pela incapacidade de um regime controlar aquilo que possui. E, no mundo moderno, regimes que perdem a riqueza que administram nunca mantêm o poder por muito tempo — seja pelas urnas, seja pelo mercado, seja pela força. Se a captura de Nicolás Maduro pode parecer, à primeira vista, um episódio isolado de intervenção militar, a realidade por trás da operação é muito mais extensa. Nenhuma potência envia tropas a outro país apenas porque discorda de sua forma de governo. Esse tipo de ação — arriscada, cara e politicamente explosiva — só ocorre quando a análise estratégica aponta que o custo de não agir tornou-se maior do que o custo da intervenção. Para Washington, essa equação foi resolvida pela matéria — não pelo discurso. O governo americano já havia rotulado Maduro como líder ilegítimo havia anos, mas o regime mantinha-se em pé porque ainda havia estrutura mínima para controlar recursos internos e negociar influência. Quando esse controle se perdeu, o regime deixou de ser considerado um adversário político administrável e passou a ser classificado como um elemento desestabilizador com acesso a ativos estratégicos. Essa transição ficou evidente na forma como os Estados Unidos enquadraram a operação. Não como intervenção política, mas como execução de mandados criminais internacionais, com ordens judiciais emitidas anos antes: narcotráfico em larga escala, narcoterrorismo, participação no Cartel de los Soles, e conspiração para exportar cocaína aos EUA. Ao rotular o alvo como criminoso — e não como chefe de Estado — Washington removeu o escudo diplomático que impediria uma ação direta. Mas isso é apenas o plano superficial. No nível estratégico, as justificativas apresentadas publicamente revelam o que estava em jogo: o presidente dos EUA declarou que Washington pode “administrar temporariamente a Venezuela”, conduzir uma transição política, e usar os recursos petrolíferos venezuelanos para financiar a reconstrução, uma afirmação que dificilmente seria dita sem cálculo. Esse detalhe é essencial. A operação não se encerra com a captura — ela inicia um processo. E nesse processo está implícita a maior mudança na postura dos EUA em décadas: a disposição de assumir controle operacional sobre um território estrangeiro rico em recursos primários. Para a América Latina, isso é um terremoto geopolítico. Durante anos, as grandes potências falaram sobre: democracia, direitos humanos, proteção internacional, autodeterminação dos povos. Mas o caso venezuelano mostra outra camada da política global: quando um país não protege os recursos essenciais que detém, o mundo passa a tratá-los como ativos órfãos. E recursos órfãos sempre atraem novos administradores. A operação também precisa ser vista no contexto de competição global por hegemonia econômica e tecnológica: A China vinha expandindo sua presença na Venezuela através de crédito, infraestrutura e joint ventures energéticas. A Rússia usava o país como plataforma política e militar no hemisfério ocidental. Cuba ocupava áreas de segurança interna e inteligência de Estado. O Irã usava acordos de energia para aliviar seu próprio isolamento. A Venezuela, portanto, havia deixado de ser apenas um país em crise, e se tornado uma cabeça de ponte para adversários estratégicos dos EUA no continente americano. Quando somamos: o colapso administrativo interno, a incapacidade de explorar recursos de forma legítima, a perda de controle territorial, o envolvimento em redes ilícitas, e o avanço de potências rivais sobre reservas críticas, a intervenção deixa de parecer escolha e passa a se apresentar como inevitabilidade sob a lógica de poder. Em outras palavras: a operação militar foi o gatilho visível de um movimento silencioso: a decisão de retomar influência sobre um dos maiores depósitos de energia do mundo. E cada vez que um regime falha em proteger o que o sustenta, alguém mais — mercado, milícia ou potência — fará isso em seu lugar. Na Venezuela, por um breve instante, essa substituição ocorreu pela força oficial, e não pela clandestinidade. Com Maduro detido nos Estados Unidos e seu círculo imediato fragmentado, a Venezuela entrou em uma fase que há muito evitava encarar. O país continua existindo no mapa, continua tendo instituições em funcionamento e permanece formalmente governado, agora sob a presidência interina de Delcy Rodríguez. Mas o elemento que define a realidade é outro: nenhum desses movimentos garante que o Estado recuperará o controle sobre o que perdeu. O que está em jogo não é apenas o próximo presidente ou o modelo ideológico predominante, mas a capacidade real de o país reassumir o comando sobre os recursos que sustentam sua economia. Já não basta fazer discursos sobre reconstrução. Para que a Venezuela volte a funcionar, será necessário resgatar algo muito mais básico, que foi destruído sem alarde ao longo dos últimos anos — o vínculo entre governo, território e riqueza. A Estados fragilizados, a saída raramente se dá pela política interna isolada. O país precisará lidar com três forças ao mesmo tempo. A primeira é recuperar controle físico sobre áreas dominadas por milícias, garimpeiros ilegais, facções militares e grupos vinculados ao crime organizado, que continuarão disputando cada poço, mina e rota. A segunda é reconectar sua cadeia econômica ao mercado global, não pela via opaca que tomou conta do comércio nacional no período Maduro, mas por regras previsíveis que atraiam investimento, tecnologia, crédito e operação industrial. A terceira, e talvez a mais difícil, é reconstruir confiança — interna e externa — de que a Venezuela é capaz de administrar seus ativos estratégicos com estabilidade e racionalidade econômica. Nesse cenário, os Estados Unidos deixam de ser apenas um ator militar e passam a ocupar uma posição de árbitro provisório. Ao declarar publicamente que podem administrar a transição, garantir segurança energética e eventualmente usar parte da renda petrolífera para financiar reconstrução, Washington não fala apenas para Caracas, mas para todas as potências que nos últimos anos usaram o vazio venezuelano para avançar seus interesses. China, Rússia e Irã não estavam presentes apenas simbolicamente. Eles operavam infraestrutura, acordos, concessões e adiantamentos financeiros que substituíram, na prática, a governança interna. A queda de Maduro interrompe esses arranjos e reabre um campo de disputa que estava fechado. A América Latina, que muitas vezes se coloca à margem da redefinição global, reencontra nesse episódio uma revelação desconfortável. Países não são ignorados porque não importam, mas porque funcionam dentro de limites estáveis. Quando falham e deixam riqueza essencial exposta, voltam ao centro do tabuleiro — e nem sempre pelo motivo desejado. A Venezuela deixa de ser exceção e se transforma no primeiro exemplo concreto, em décadas, de como um Estado extrativo colapsado pode ser redesenhado de fora para dentro. O verdadeiro capítulo que começa agora é menos visível. O país terá de decidir, e o mundo com ele, quem será capaz de reconstruir equipamentos industriais, reviver refinarias, recuperar barris perdidos e devolver institucionalidade à mineração de ouro, coltan e bauxita. Essa decisão determinará não apenas a política nacional, mas o eixo econômico do continente pelos próximos anos. Se der certo, a Venezuela voltará a ser potência regional e parceira confiável. Se falhar, continuará vulnerável a arranjos externos ou a fragmentações internas, cada qual mais custosa. O que a operação de janeiro revelou, com clareza que ultrapassa discursos e comunicados diplomáticos, é que a riqueza de um país pode torná-lo resiliente ou expô-lo à intervenção. Regimes autoritários podem sobreviver mais tempo do que pareciam capazes se mantiverem a capacidade de operar suas infraestruturas mais importantes. O chavismo não falhou apenas porque restringiu liberdades. Ele falhou porque rompeu o mecanismo que sustentava o país. Sem indústria extrativa funcional, o restante da estrutura desmoronou junto. A Venezuela se encontra, portanto, entre dois caminhos. Um deles exige recuperar capacidade técnica, reconstruir instituições e reintegrar-se ao mercado. O outro é continuar refém da lógica de improviso e da fragmentação territorial. O primeiro caminho é longo e exige acordos difíceis. O segundo exige apenas inércia — e foi essa inércia que levou o país ao ponto atual. A lição silenciosa, que o mundo entendeu mesmo sem admiti-la em fóruns, é simples e direta. Soberania não é estática. É sustentada ou perdida diariamente, de acordo com quem controla o que está no subsolo, nas refinarias, nos corredores logísticos e nos sistemas que transformam matéria em riqueza. A operação militar apenas tornou visível a etapa final de um processo iniciado quando o país deixou de administrar o que possuía. A Venezuela ainda tem tempo de se reconstruir, mas agora a iniciativa não está apenas em suas mãos. O relógio corre e, para um país que perdeu tanto, a única saída duradoura será recuperar o que sempre teve e deixou escapar: o controle da própria fonte de poder.